Veja novas formas de alocação de crédito para empresas em reestruturação

Hoje cerca de 150 agentes de financiamento de Dip Finance atuam no Brasil, apoiando as mais robustas boutiques de turnaround


Por Bússola
Publicado em: 11/12/2021


Operações na modalidade de DIP-F vêm crescendo no Brasil, na medida que o turnaround amadurece (EXAME/Exame)

Por Luis Alberto Paiva*

Estimamos hoje cerca de 150 agentes de financiamento de Dip Finance atuando no Brasil, que já operam apoiando as mais robustas boutiques de turnaround. Quando olhamos para empresas com alto nível de risco, onde a possibilidade de retorno se torna mais adequada, é fundamental que se tenha em mente formatos menos ortodoxos de análise global de crédito, aquelas montadas pelas análises setoriais, análises de crédito conservadoras e níveis de restrição.

Se de um lado, as empresas com alto nível risco têm a possibilidade através de ferramentas que lhes permitam a revitalização de suas margens e a administração de seus passivos, a aderência do crédito a esta nova realidade permite um conjunto de alternativas que, conjuntamente, com a aderência a este novo padrão, vão permitir oportunidades de rentabilização deste capital ao tomador, e consequentemente ao estruturador do Dip Finance.

As oportunidades que apresentam são aquelas originadas através da nova realidade criada pela recuperação judicial. Imagine que empresas que vinham de uma realidade de alavancagem para a cobertura de prejuízos, agravando cada vez mais seu grau de insolvência, a partir de adequadas estratégias, modelos eficazes de gestão e acesso ao novo Dip Finance, têm tido acesso à reversão de sua estrutura de capital, ou seja, seu passivo de curto prazo é levado e trazido a níveis menos agressivos (Cut-Off), os prazos de adequação para pagamento desses passivos são de longo prazo e administrados a taxas mais palatáveis, o que significa que passa a ter a oportunidade de reverter seus horríveis resultados para padrões aceitáveis de mercado.

As dívidas novas passam a ser digeridas no longo prazo, e essa adequação lhes permitirá inclusive o acesso a capital para os investimentos em tecnologia, levando-as aos padrões de competitividade necessários para o mercado nacional e internacional.

O investidor tem conseguido, através do entendimento e participação nessas estratégias, disponibilizar recursos para esta potencialização de crescimento com patamares mais adequados de TIR (taxa interna de retorno), e ainda conta com as proteções da extraconcursalidade, o que cria conforto mais apropriado para o retorno de seus recursos.

O capital de Dip Finance tem se aproximado das empresas em fase de reestruturação financeira sob diversas formas, como o fomento mercantil, capital de curto prazo e investimentos através de fundos de distress, seja para operações de débito ou através de operações de equity (onde criam-se proteções e oportunidades para venda de participação, inapropriadas antes destas proteções).

Alguns passos são necessários para que se possa estabelecer as mais adequadas estratégias de recuperação econômica (recuperar margens e resultados) e a recuperação financeira (recuperar capital de giro operacional ou para investimentos): a) estabelecer os formatos e estratégias, tanto com relação ao crescimento quanto com relação à adoção de medidas para mitigação de passivos; b) buscar a assessoria de players com experiência na recuperação de empresas; c) estabelecer as ferramentas que permitirão o controle e a medição das medidas em processo de implantação; e d) instrumentalização dessas ferramentas através de equipe de alta performance.

A conjugação das medidas vai permitir que se possa elencar um conjunto de gestores de alta performance, para a execução das alternativas de retomada e mudança nos padrões de execução e atividade do negócio, tornando-o palpável sob o ponto de vista de viabilidade, de demanda, de posicionamento estratégico, de vazão e logística de distribuição, reposição, estoques e armazenagem, tecnologia, e altamente inteligente sob o ponto de vista e alcance mercadológico e proteção tecnológica.

Essas mudanças vão demandar primeiro a administração dos passivos correntes e a atração dos investimentos do Dip Finance, e o adequado uso de recursos, nos gargalos demandantes destes investimentos. Todas essas questões são realizadas conjuntamente e a estratégia de reversão não permite margem de erros e manobras por planos inadequados. Logo, estratégia, capacitação, controles e medições e capital intensivo precisam caminhar juntos, permitindo de maneira rápida o equilíbrio e o crescimento.

As operações na modalidade de DIP-F vêm crescendo no Brasil, na medida que o turnaround amadurece, e podem alcançar volumes acima de R$ 1 bilhão em 2022, segundo estudos da própria consultoria. Este aumento se deve aos entendimentos mais favoráveis por parte do judiciário, que cria mais segurança jurídica com as recuperações judiciais, bem como a experiência favorável com as operações correntes.

Os trabalhos mais rígidos de reestruturação têm levado até 24 meses, mas seus resultados já são facilmente identificados nos primeiros meses do projeto de turnaround.

*Luis Alberto Paiva é sócio da Corporate Consulting, especializada em turnaround e reestruturação de empresas.


Publicado por Exame