Saúde financeira: Tudo depende de a economia voltar a crescer

Saúde financeira: Tudo depende de a economia voltar a crescer

Saúde financeira: Tudo depende de a economia voltar a crescer

Alívio de liquidez não será permanente e efeitos da crise ainda podem perdurar mais tempo

Por Luiz Sérgio Guimarães, Para o Valor 
30/10/2020 06h55 Atualizado há 3 horas

Em sete meses de pandemia, cerca de 30 mil empresas fecharam as portas e o desemprego saltou a patamar recorde. Mesmo assim, contraditoriamente, estão em queda os índices que medem a inadimplência, a insolvência e os pedidos de recuperação judicial. Como justificar o paradoxo? A explicação deve ser buscada na injeção de recursos feita pelo Banco Central (BC) e pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) na economia. O socorro de liquidez permitiu que empresas médias e grandes pudessem renegociar suas dívidas, empurrando os pagamentos para o futuro. Concomitantemente, o auxílio emergencial à população de baixa renda segurou a queda do consumo. As previsões mais catastróficas de recessão foram afastadas.

O alívio, porém, não deve durar para sempre. Pressionado pela deterioração das contas públicas, o governo não poderá estender os aportes de capital indefinidamente, a menos que recorra a algum estratagema amparado em emissão primária de moeda. Como os empréstimos reescalonados terão de ser pagos um dia, se a economia não voltar a crescer em 2021 os índices de solvência poderão deixar de ser paradoxais.

“Os dados trafegam na contramão do que era esperado. Para uma recessão na casa dos 12% no primeiro semestre, caíram as taxas de inadimplência, insolvência e de recuperação judicial. Doses cavalares de liquidez foram jogadas na economia já a partir de março e os bancos mobilizaram suas equipes para fazer o que fosse preciso para ajudar as empresas. Mas ninguém deve se iludir: a crise foi devastadora”, alerta o economista-chefe da Serasa Experian, Luiz Rabi.

No acumulado do ano até agosto, o número de empresas que pediram recuperação judicial caiu 7,3%. Apenas o setor de serviços, cujos pedidos saltaram 13,6%, contrariou a tendência geral de recuo. Nos demais macros setores houve queda: 37,8% no agronegócio, 23% no comércio e 12,4% na indústria. A inadimplência geral também cedeu. De acordo com o BC, a taxa que mede os atrasos superiores a 90 dias foi de 3,29%, o menor patamar desde os 3,25% de dezembro de 2018.

O dado capaz de espelhar o quadro real vem do mercado de trabalho. O economista lembra que durante a pandemia a força de trabalho ocupada caiu de 94 milhões de pessoas para 83 milhões, ou seja, 11 milhões foram obrigadas a fazer quarentena a contragosto.

O golpe sofrido pelos serviços não pode ser avaliado apenas pelo crescimento dos pedidos de recuperação judicial. Neste setor, a mortandade de CNPJs é difícil de ser estimada. Bares, restaurantes, casas de entretenimento, turismo, prestação de serviços e pequenas lojas de comércio varejista optam por fechar as portas e não dar baixa no CNPJ, um procedimento burocrático caro e demorado.

As estatísticas da Receita Federal mostram um mundo que não existe. Recuperação judicial? Para a imensa maioria das empresas acuadas, trata-se de uma opção inviável ao incorrer em custos e estrutura organizacional impraticáveis. Há hoje nos registros da Serasa cerca de seis milhões de empresas negativadas. “Depois de uma série de pequenas inadimplências, o empresário se vê completamente insolvente, cerra as portas do seu negócio, não cancela o CNPJ e, quando a situação melhora, abre outro, em local diferente e com novo CNPJ e recontrata mão de obra pagando menos”, diz Rabi.

A via judicial de recuperação é para poucas e estruturadas empresas. O processo todo, desde a homologação do plano pelo juiz, pode ser finalizado em quatro a cinco anos. Enquanto isso, a economia como um todo precisa estar em retomada sustentada. É por isso que a maioria das empresas prefere a via bancária. A negociação com o gerente é mais rápida e pode ser mais vantajosa se a instituição se mostrar receptiva.


Luiz Rabi, da Serasa Experian: ninguém deve se iludir, pois estatísticas não refletem o mundo real — Foto: Divulgação

Foi para facilitar o acesso que o BC injetou R$ 230 bilhões nos bancos logo no início da pandemia e o BNDES abriu um crédito de R$ 20 bilhões por meio do Fundo Garantidor para Investimentos (FGI) e cerca de R$ 10 bilhões no âmbito do Pronampe, a linha às pequenas e médias empresas. Mas, no enfrentamento dos efeitos econômicos da pandemia, o diretor de operações do BNDES, Ricardo Barros, considera fundamental o papel do Programa Emergencial de Acesso a Crédito (Peac), criado em junho.

O programa liberou até setembro R$ 61,2 bilhões às micro e pequenas empresas cuja capacidade de obtenção de empréstimo esbarrava no rigor cadastral das instituições privadas. A presença do BNDES anula a natural aversão ao risco de crédito.

A Pantalica Partners previu, em março, que a pandemia iria forçar algo como três mil empresas a solicitar recuperação judicial, mas o dado concreto até agosto foi de 868. A previsão da consultoria se baseava, segundo seu presidente, Salvatore Milanese, em uma “extrapolação estratégica” dos 1.800 pedidos formulados na crise recessiva de 2015 e 2016, quando o PIB caiu 3,1% e 3,3%, respectivamente.

Como o fato que impediu a repetição do cenário de cinco anos atrás já não existe mais – pois os créditos emergenciais já foram atenuados ou não renovados e as empresas iniciarão em breve a amortização das dívidas escalonadas em março –, não será descabido supor que a previsão inicial se confirme nos próximos meses. “Teme-se atrasos na chegada das vacinas. E o Brasil, como sempre, será afetado por um agravamento da economia global”, diz Milanese.

O economista Luís Alberto de Paiva, diretor da Corporate Consulting – empresa especializada na gestão de crises e reestruturação – diz que 2020 está sendo pródigo em surpresas e reviravoltas. O ano começou com a continuidade da morosa recuperação econômica iniciada em 2019. Veio em seguida a pandemia, e tudo travou. Após os estímulos creditícios e o auxílio emergencial, a demanda se aqueceu, instalou-se uma bolha de consumo e sobreveio um quadro de desabastecimento e retorno da inflação.

“No início da pandemia, as empresas paralisaram a produção e foram queimando seus estoques. A bolha de consumo pegou o mercado sem produtos. Como a carteira de pedidos é gigantesca, ocorre um desalinhamento de preços”, relata Paiva.

Essa conjuntura poderá facilitar o pagamento dos passivos renegociados em março e abril. Depende principalmente da continuidade do programa de ajuda governamental à população mais carente. O que se tem certeza é que, da parte do governo, o desajuste das contas públicas não permitirá grandes esforços diretos.

“As empresas enfrentam custos mais elevados por causa do desabastecimento e do dólar alto. Precisam repassá-los aos preços, ao mesmo tempo que comprimem ainda mais suas já reduzidas margens de lucro. Não dá para descartar nova onda de quebradeira”, avisa o economista.

Estudos do Cemec, centro de pesquisa do mercado de capitais vinculado à Fipe-USP, mostram que as medidas emergenciais adotadas pelo BC permitiram uma elevação expressiva na captação líquida total de recursos pelas empresas. A liberação dos depósitos compulsórios em março evitou que as companhias entrassem em severa crise de liquidez.

A captação alcançou R$ 230,1 bilhões nos 12 meses terminados em maio, cerca de 24,5% acima dos R$ 184,8 bilhões verificados em período correspondente de 2019. O coordenador do Cemec, Carlos Antônio Rocca, explica que esses R$ 230,1 bilhões estavam liquidamente no caixa das empresas e foram fundamentais para que pudessem atravessar os piores meses de paradeira total da economia.

“As medidas de aumento da liquidez e do crédito adotadas em março pelo BC tiveram impacto significativo no volume de crédito oferecido pelos bancos para as empresas grandes, cujo saldo cresceu de R$ 902,4 bilhões em fevereiro para R$ 1,02 trilhão em maio de 2020, com evolução de 13,3%”, informa o economista.

As pequenas e médias empresas foram menos beneficiadas. Para elas, a elevação dos empréstimos foi de apenas 3,7%, de R$ 541,6 bilhões para R$ 561,9 bilhões no mesmo período. Para Rocca, embora concentrado nas grandes empresas, o socorro do BC foi “extremamente potente”. Mas o desafogo de caixa não ocorreu de forma homogênea.

Foram mais favorecidas as empresas diretamente dedicadas ao consumo popular. Outro fator de diferenciação veio das exportações. Ganharam as companhias que, favorecidas pela alta do dólar, puderam aumentar suas exportações, sobretudo para a China.

O cenário para os meses finais deste ano e para o primeiro trimestre de 2021 permanece turvado também pelo desinvestimento em estoque ocorrido durante o período mais rigoroso da crise. No primeiro semestre do ano, pelas contas do Cemec, o volume consumido e não reposto em estoques alcançou a R$ 93 bilhões.

A reposição, se a demanda justificar, será feita a preços bem mais elevados. O comportamento da economia no ano que vem dependerá da capacidade de o governo encontrar mecanismos que criem a expectativa de sustentabilidade da dívida pública no longo prazo. A credibilidade poderia ser restaurada por meio de um plano sólido de investimento em infraestrutura. “Não há ameaça de calote da dívida pública quando ela é denominada em moeda nacional. Isso não existe”, diz o professor da USP.

Publicado por Valor Econômico