O filme começa a esquentar

Após dois anos de rearranjo do negócio, o Grupo Zanatta encara em 2018 o seu primeiro exercício após a aprovação dos credores, obtida enfim em novembro passado, do seu plano de recuperação judicial, resultante de endividamento calculado em R$ 237 milhões. Ele engloba a transformadora de flexíveis laminados Canguru Plásticos e a fabricante de caixas d’água rotomoldadas e de telhas de fibrocimento Imbralit, fora três empresas não divulgadas e integrantes do grupo sediado em Criciúma, ao sul catarinense. Conforme foi acertado, o passivo será quitado em 15 anos, com a possibilidade de aceleração dos pagamentos mediante venda de bens e fornecimentos.

Recessão e dívidas nunca viajam bem. Em 2015, a receita do Grupo Zanatta rondava R$ 386 milhões. “Em 2016, faturou R$ 252 milhões e no ano passado, R$ 243 milhões”, complementa Marcelo Vieira de Sá, gerente de negócios da Canguru. Três anos atrás, por sinal, o grupo familar passou as rédeas da gestão à Corporate Consulting, empresa especializada em recuperação do valor e desempenho industrial. Entre suas principais ações, consta o fechamento da controlada Inza, dedicada à produção de descartáveis como copos multiuso, negócio em que o grupo atuava desde 1974. “A Corporate Consulting liderou todo o processo de renegociação e alongamento dos passivos, levando um endividamento de curto prazo para pagamento em até 15 anos, com juros reduzidos e descontos expressivos”, assinala o executivo, salientando que a reestruturação desembocou em redução de custos e ganhos de produtividade. “Para este ano, trabalhamos com orçamento de R$ 350 milhões”, insere Vieira de Sá. 

Na selfie atual, a pedra de toque do Grupo Zanatta é a transformadora de filmes com 48 anos de estrada, capacidade instalada da ordem de 950 t/mês e tendo rodado no ano passado com perto de 60% de ocupação. O fôlego financeiro proveniente da reestruturação e do plano de recuperação judicial, atribui Vieira de Sá, “permitiu à Canguru normalizar os níveis de estoque e trabalhar com lotes ideiais de produção, pontualidade nas entregas e investimentos em áreas como extrusão, flexografia, acabamento e P&D”. Sob os cambaleios da economia, nota o gerente, a Canguru deparou em 2017 com um cenário de redução nas suas vendas para indústrias finais e subida na ociosidade na capacidade de convertedores concorrentes, convergindo para disputa engrossada e consequente escalpe nas margens do seu ramo. No plano geral, ele evidencia, o mercado de flexíveis é o octógono de uma briga de foice pelo fornecimento de embalagens a grandes corporações, sob pressão de volatilidade nos preços das resinas. “Daí porque a Canguru direcionou o foco para produtos e serviços em setores de menor risco comercial, contendo clientes que demandem excelência”. 

É neste contexto que deve-se entender a conquista, pela Canguru, da certificação BRC/IOP, da associação British Retail Consortium, atestado formal de que a empresa aquinhoada com este selo segue padrões extremos de qualidade, segurança e operação da linha de produção.

Em Criciúma, a propósito, a Canguru roda com cinco extrusoras, inclusos modelos Carnevalli mono e coex blown; sete flexográficas, duas laminadoras e diversos equipamentos de acabamento. “O projeto para implantação da norma BRC/IPO consumiu dois anos de estudo e a tramitação da certificação levou cerca de um ano, demandando investimentos desde a limpeza e organização das dependências prediais ao controle de pragas, adequação de uniformes e rotina de acesso dos funcionários ao parque fabril, mitigando assim riscos microbiológicos, químicos e físicos (incidência de farpas e vidros, p.ex.)”, explica a coordenadora de qualidade Cristina Bianchini. Apenas um concorrente direto da Canguru, ela enxerga, ostenta no Brasil o selo da entidade britânica. “Ele nos consolida na América Latina como fornecedor referencial nos segmentos de pet food, beleza e higiene pessoal”, sublinha a técnica, ilustrando com P&G, Nestlé, PremieRpet e Adimax o status de quem exige de sua empresa o galardão da BRC/IOP. 

Ao lado da credencial, os credores da Canguru têm motivos para soltar rojão com o plano de recuperação judicial a partir das intenções de compra dos bens primários que a empresa atende. Varredura da consultoria MaxiQuim reza que os sete mercados capitais para flexíveis (ver quadro acima) devem ir à forra este ano da sangria dos indicadores de 2016 e 2017. Se der a previsão, enfim o filme terá final feliz.

Publicado por Plástico em Revista