Nada será como antes?

Nada será como antes?

A pandemia do novo coronavírus cobriu o mundo de incertezas. Analistas ouvidos pela Rumos avaliam seus efeitos sobre diferentes setores da economia brasileira, discutem os impactos sociais da crise e tentam projetar o futuro dos negócios e das sociedades após a humanidade vencer este desafio. POR CARMEN NERY


A pandemia do novo coronavírus criou um imperativo universal para governos e organizações tomarem medidas imediatas a fi de proteger suas populações. É o que afi o estudo Trabalho Digital Elástico, da consultoria Accenture, que destaca que são mais de 160 países e territórios afetados e nenhuma indústria está imune ao choque provocado pela crise. Empresas de viagens e turismo já contabilizam o maior impacto desde o 11 de Setembro de 2001. Organizações de varejo e de bens de consumo sentem a falta de estoque devido a atrasos na produção e quebra de cadeias de suprimentos. Eventos globais foram todos adiados ou cancelados. 

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que a pandemia atingiu em cheio os setores industrial, de comércio e de serviços no país. Em março – primeiro mês das medidas de isolamento social – a produção industrial despencou 9,1%. Em abril, a queda foi ainda maior e foi registrado um recuo de 18,8% frente a março. O varejo teve queda de 16,8%. Mesmo os supermercados, que haviam regis- trado alta de 14,6% em março, tiveram queda de 11,8% em abril. O setor de serviços recuou 11,7%, considerado o pior resultado desde 2011, como consequência das medidas de isolamento social. 

O desempenho dos principais segmentos afetou diretamente os resultados do Produto Interno Bruto (PIB), que caiu 1,5% no primeiro trimestre. O índice sofreu o impacto da queda de 2,5% no consumo das famílias, de 1,6% nos serviços e 1,5% na indústria. De acordo com sondagem da Confederação Nacional da Indústria (CNI), sete em cada dez indústrias citam a queda no faturamento entre os cinco principais efei- tos da Covid-19. A inadimplência e o cancelamento de pedidos foram apontados por 45% e 44% dos entrevistados, respectivamente. 

O segundo maior impacto foi a diminuição na produção. Das 1.740 empresas pesquisadas pela CNI, en- tre 1º e 14 de abril, 76% relataram que reduziram ou paralisaram a produção. Outras 59% estão com dificuldades para cumprir com os pagamentos correntes e 55% relataram que o acesso a capital de giro ficou mais difícil. Entre as medidas tomadas, 15% das empresas demitiram. No total, 91% das indústrias brasileiras relataram impactos negativos até abril. “Ninguém tem ideia do que vai acontecer. Trabalhávamos com três cenários para 2020. No otimista, a queda seria 0,9% e no cenário mais pessimista estimamos uma queda de até 7,3%, com empresas quebrando e saída mais demorada da crise, que será mais intensa quanto mais atrasarem as medidas do governo”, analisa Renato da Fonseca, gerente-executivo de pesquisa e competitivi- dade da CNI. 

Ele afirma que, em todo o mundo, só o governo é capaz de dar a arrancada inicial necessária para os países saírem da crise, ajudando a população e as empresas. A CNI propõe que o Brasil adote a mesma medida do Banco Central americano ao criar uma linha que compra 95% dos empréstimos dos bancos privados ao setor produtivo. Fonseca destaca que o Tesouro Nacional já está garantindo 85% dos empréstimos para a folha de pagamentos, porém uma parcela muito pequena é destinada às empresas com faturamento de até R$ 10 milhões e ainda se exige que elas tenham um contrato de folha de pagamentos com o banco. “Mas é fundamental que as medidas emergenciais do governo não aumentem o déficit fiscal”, observa Fonseca. 

Para Fernando Honorato, economista-chefe do Bradesco, as medidas fiscais e monetárias neste momento são fundamentais e se ficarem circunscritas à crise podem não trazer consequências de longo prazo, diante da retomada da agenda de reformas e da manutenção de uma política econômica consistente. Ele destaca que o nível de incerteza segue elevado, afetando mercados e recomendando cautela com as projeções do cenário. Para Honorato, a compreensão sobre a imuniza- ção e a existência de medicamentos é que irão determinar a profundidade e a extensão dessa crise. “Em maio, revisamos várias projeções do nosso cenário, a começar pelo PIB global, que deve contrair 3,5%. No Brasil, esperamos queda do PIB de 4,0% com inflação em 2,2%, o que deve levar o Banco Central a cortar a Selic para 2,25%, mantendo-a nesse patamar até o final de 2021. Esperamos aceleração do PIB no próximo ano para 3,5%. E alteramos nossa expectativa para a taxa de câmbio para R$/US$ 4,9 em dezembro, mas pode haver depreciação adicional no curto prazo”, estima Honorato. 

José Roberto Afonso, economista e tributarista pes- quisador do Instituto Brasileiro de Economia da Funda- ção Getulio Vargas (IBRE-FGV), em palestra online promovida pela Associação Brasileira de Desenvolvimento (ABDE), observa que não há restrições legais para se dar uma resposta fiscal via mais gasto ou mais dívida. A própria Lei de Responsabilidade fiscal já contempla válvulas de escape para situações de calamidade ou de recessão. “Mesmo a emenda do teto de gastos tem exceções como os créditos extraordinários, a exemplo dos que foram abertos em 20 a 30 MPs. Também houve o Supremo sancionando as ações imediatas e algo inédito como a PEC do orçamento de guerra. O Brasil é dos poucos países em que o Congresso está trabalhando. Tudo isso cria um regime extraordinário fiscal só para a União e reforça a transparência fiscal, além de tratar de algumas exceções como a regra de ouro para o BC inclusive atuar na compra direta de créditos privados. É óbvio que o endividamento público vai subir e isso não é problema; ao contrário, é solução. O ideal é que, no médio e no longo prazos, se possa converter a dívida pública em privada”, elenca Afonso. 

Ele diz que o país vai precisar de reconstrução e não somente de recuperação, pois não irá voltar ao que era antes. Será necessário um redesenho institucional, econômico e social. A Covid surgiu numa cena econômica que não era das melhores, além de representar uma crise sanitária que teve data para começar, mas não tem data para acabar. Para o economista, não há a menor chance de recuperarmos o ano que vem, pois a economia mundial está em recessão, com falta de demanda, de oferta e de confiança. A grande dúvida é se haverá uma depressão ou uma grande depressão. E num momento como esse deve-se aumentar a dívida pública, como defendeu o economista John Maynard Keynes. 


Vendas nos supermercados tiveram alta em março, mas recuaram em abril.
Varejo teve queda de 16,8%, a maior
dos últimos 20 anos .

Para Afonso, o problema da dívida brasileira não é o tamanho – menor se comparada à de outros países emergentes –, e sim a composição, com os ativos do país concentrados na dívida pública, com paralelo apenas na Índia e no Japão. O sistema bancário brasileiro não gosta de dar crédito para empresas, preferindo emprestar para o governo. Outra característica é que a proporção da dívida pública na mão dos estrangeiros é baixa, apenas 35%. O governo não precisa de estrangeiros para expandir a dívida pública e basicamente está expandindo-a via compromissáveis, queima do caixa do Tesouro e uso de reservas. 

“Quem vai ter de resolver esse desafio são os brasileiros. A crise parece um ‘I’, que afunda cada vez mais, e precisamos transformá-la num ‘L’, que afunda, mas chega em um ponto e passa a andar de lado. As últimas previsões sobre o PIB já esti- mam queda de 11%. Na saúde, a resposta tem sido pífi.O governo federal já tem autorizado gastos de R$ 260 bilhões, dos quais apenas R$ 24 bilhões são para emergência de saúde; e o pagamento é irrisório, até maio só haviam sido desembolsados R$ 6 bilhões”, lamenta Afonso.
 
Ele ressalta que, de acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), considerando-se a proporção das medidas em relação ao PIB, o Brasil está fazendo muito pouco e por meio de uma ex- pansão muito mais financeira do que fiscal, como prorrogação de recolhimento de impostos. Muito abaixo do que fazem os países do G-20, em que o campeão é a Alemanha, com o banco de desenvolvimento KfW concentrando o pacote de resposta econômica. “De acordo com o FMI, a dívida pública brasileira terá um aumento de 9 pontos do PIB, abaixo das economias emergentes e avançadas. É lógico que, como já tínhamos uma dívida pública alta, o país fica limitado”, ressalta o economista. 


José Roberto Afonso, economista.

Para José Roberto Afonso, o país vai precisar de reconstrução e não somente recuperação, pois não irá voltar ao que era antes. Será necessário um redesenho institucional, econômico e social.

NEGÓCIOS DIGITAIS 

Os impactos da crise variam em cada estado. De acordo com pesquisa da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan), quase 80% das indústrias fluminenses entrevistadas paralisaram ou reduziram a produção diante da pandemia do coronavírus. Para 71,8% dos industriais ouvidos, a queda do fa- turamento é um dos principais impactos da crise, além de dificuldades para acesso ao crédito. 

Por outro lado, a Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABComm) apurou que no e-commerce brasileiro houve um crescimento de 47% de pedidos em abril e aumento de 18% no valor do tíquete médio, que foi a R$ 492,43 contra R$ 417,82 no início de março. No período inicial da quarentena, três setores se destacaram. Brinquedos registrou alta de 434,70% nos pedidos; Supermercados cresceu 270,16%; e Artigos Esportivos aumentou 211,95%. 

Um estudo do BTG Pactual mostrou que o desempenho da Magazine Luiza em cinco semanas pode ser comparado ao trabalho de cinquenta semanas. Em webinar promovido pela Firjan, Luiza Trajano, presidente do conselho de administração da varejista, diz que, embora seja muito aberta ao novo, no início da crise ficou muito assustada e paralisada porque a pandemia fez as pessoas se depararem com a sua própria impotência. 

“No primeiro momento, ficamos assustados e no segundo resgatamos o que é muito importante: a humildade. Estou vivendo cada dia, porque, se ficar pensando no que vai acontecer quando abrir, não vou conseguir viver o hoje. Sou uma CEO de crises, vivi todas as crises brasileiras, como as mudanças de moedas, o apagão, as crises financeiras. O Magazine tem crescido nas crises. Tanto a Amazon quanto a Alibaba já nasceram no digital. Nós somos uma das poucas empresas do mundo que acreditou em transformar a loja física em digital. Pagamos caro por isso, nossas ações foram lá embaixo porque todo mundo queria que separássemos o mundo físico do digital”, diz Luiza Trajano. 

Hoje a empresa tem três laboratórios de inovação em Franca, São Paulo e Uberlândia, e adquiriu várias empresas de tecnologia. Ela afirma que todas as lojas vivem do digital e a empresa conta com 20 mil lojinhas Parceiro Magalu, com autônomos que escolhem os produtos da marca, enviam por Whatsapp para seus clientes e amigos ou criam uma loja virtual própria, recebendo comissão, mas com entrega e recebimento pela Magalu. “Independentemente do déficit público, o governo tem de dar dinheiro para a população – e fazer chegar às pessoas esse dinheiro –, além de ajudar as pequenas e médias empresas. O que carregamos deste momento é a generosidade. A sociedade está muito atenta. E nós devemos nos res- ponsabilizar pela desigualdade social, que é muito grave”, defende a empresária.

 
Luiza Trajano, empresária.

Segundo a Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABComm), o  e-commerce brasileiro teve um crescimento de 47% de pedidos em abril e aumento de 18% no valor do tíquete médio, que foi a R$ 492,43 contra R$ 417,82 no início de março. A Magazine Luiza possui três laboratórios de inovação e integrou as lojas físicas e digitais. 

Luís Alberto de Paiva, economista e presidente da Corporate Consulting – responsável pela reestruturação empresarial de mais de 400 companhias – prevê que mais de 5 mil empresas recorram a algum modelo de readequação de suas finanças, metade delas por meio de pedido de recuperação judicial e a outra metade recorrendo a renegociações stand still – suspensão temporária de pagamentos de juros e dos empréstimos. Cerca de 60% desse volume será provisionado para perdas. “Com isso, os ban- cos evitam que as empresas tomem decisões de rupturas maiores, como a recuperação judicial e extrajudicial. Mas as microempresas não têm condições para readequações de seus passivos, simplesmente desativam suas operações e abrem outra. Em 30 dias de confinamento já tínhamos 600 mil empresas fechadas”, sinaliza Paiva. 

INSTITUIÇÕES DE FOMENTO 

Luiz Alberto Esteves, economista-chefe do Banco do Nordeste (BNB), prevê que o PIB seguirá em linha com o apontado pelo Boletim Focus: queda de 5,5 a 6%, ou até mais no que seria o pior cenário desde a recessão de 2015/2016, quando houve queda acima de 3%. “Tudo vai depender de como vamos sair da crise. Se conseguirmos salvar pelo menos o segundo semestre, a queda pode ser de 6%. Mas se a pandemia e o isolamento se prolongarem mais, vamos perder o ano e poderemos ter uma queda acima de dois dígitos”, lamenta Esteves. 

O Nordeste, que teve crescimento de forma expressiva em anos recentes, hoje está com o mesmo desempenho do restante do Brasil. As políticas públicas de transferência de renda, com ganhos reais do salário mínimo e benefícios sociais, acabaram beneficiando a região. Mas Esteves destaca que não foi apenas isso, pois o Nordeste já tinha seus próprios fatores de dinamismo com as obras de infraestrutura e de energias renováveis. 

Ele considera que os bancos de fomento podem ajudar bastante, flexibilizando a questão das garantias que, no momento atual, estão sendo destruídas – investimentos, poupança, recebíveis. Após a pandemia, quando o varejo e a indústria forem refazer os estoques, haverá uma explosão da demanda por crédito. “Não dá para expandir crédito sem flexibilização de garantias. Os bancos de desenvolvimento, classicamente, são os que tomam mais riscos. O Nordeste trabalha muito bem com microcrédito, que não usa garantia física nem pessoal e sim de grupo solidário. Praticamente não há inadimplência no microcrédito, que não utiliza recursos subsidiados e representa um terço da carteira do BNB. Somando-se as pequenas e médias empresas, mais de 50% da carteira não vêm das grandes empresas, que respondem principalmente pelos projetos de infraestrutura. A grande fronteira de crescimento do Nordeste são os projetos de energias renováveis, solar e eólica, baseadas em recursos naturais abundantes”, destaca Esteves. 



Adauto Modesto Jr, economista-chefe do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG), diz que é importante reconhecer a gravidade e a extensão da crise do coronavírus. Ele observa que, ao longo do tempo, aprende mos com as sucessivas crises anteriores, como a grande depressão de 1929 e, mais recentemente, com a crise global de 2008. Nesses momentos, é fundamental a atuação dos instrumentos anticíclicos que vão tentar mitigar os efeitos da crise. 

“Entre os instrumentos anticíclicos estão os bancos de desenvolvimento e as agências de fomento. São instituições que têm no seu DNA a capacidade de identificar os problemas que ocorrem no tecido econômico, sob sua jurisdição, e têm meios para ajudar as empresas e os governos a combater os efeitos imediatos e de médio e longo prazos da crise. O Sistema Nacional de Fomento já está fazendo isso. O BDMG aumentou seus desembolsos em 91%, um mês após anunciar um esforço conjunto de várias áreas e redução das exigências burocráticas, para responder a um aumento da demanda por crédito e às necessidades de caixa das empresas”, anuncia Modesto. 

Ele ressalva, porém, que tudo tem sido feito com muita responsabilidade sem tomar riscos que a instituição não tenha capacidade de absorver. E destaca a importância de se fortalecer a atuação do Sistema Nacional de Fomento com acesso a funding mais adequado. Para isso, a relação com os bancos multilaterais é funda-mental. “Com funding adequado e estrutura de garantias vamos poder fazer mais do que já te- mos feito”, sinaliza Modesto. 

Otaviano Canuto, ex-vice-presidente do Banco Mundial e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), além de ex-diretor executivo do Fundo Monetário Internacional (FMI) e atualmente membro sênior do Police Center for New South, diz que, em momentos de crise, há uma tendência de se atribuir uma responsabilidade às instituições de Bretton Woods, muito maior do que elas são capazes de assumir. Mas elas têm importância. Um exem- 
plo é o FMI, provedor, em última instância, de liquidez de recursos de curto prazo para os países por meio dos bancos centrais. Canuto ressalta que a crise do coronavírus gerou uma paralisia do fluxo o de capital para os países em desenvolvimento. 

“Em três semanas de março, saíram US$ 100 bilhões dos mercados emergentes, em busca da segurança dos títulos do governo americano. No caso de países em desenvolvimento não emergentes, também houve paralisia de outros fluxos de dinheiro, como as remessas dos não residentes. Mais de 90 países pediram socorro emergencial ao FMI. Muitos andaram se endividando e estão com serviços de dívida externa que não estão tendo condições de cumprir. O Banco Mundial e o FMI fizeram um apelo para a suspensão dos serviços de dívida dos empréstimos bilaterais este ano e o G-20 corroborou. Mas ainda tem o serviço das dívidas privadas”, destaca Canuto. 

Ele diz que se a crise do coronavírus é pesada nos países desenvolvidos, é ainda mais severa nos países em desenvolvimento, onde as dificuldades para achatar a curva da pandemia são ainda maiores. A capacidade clínica instalada é menor. Esses países sofrem a chamada tempestade perfeita: além de ter de lidar com a pandemia, há o choque financeiro, o choque de preços de commodities e o choque de remessas – mais de um terço do PIB do Haiti é de remessas de imigrantes. 

“Em todo o mundo, quem vem para a linha de frente para combater a crise do coronavírus é o setor público. Em tempos de catástrofe, o papel segurador do Estado vem à tona e é importante que haja capacidade para cumprir essa função. Precisamos integrar fisicamente as favelas, prover saneamento. De certa maneira, a crise reforçou essa percepção. Nos EUA, há uma parcela da população que não tem serviços de saúde. Nós temos o Sistema Único de Saúde”, defende Canuto. 


Otaviano Canuto, ex-vice-presidente do Banco Mundial

Para Otaviano Canuto, no  mundo inteiro vai ocorrer um aumento da dívida pública porque todos os Estados estão transferindo renda para as pessoas mais necessitadas e provendo crédito para empresas que ficaram vulneráveis subitamente.

Ele explica que, no mundo inteiro, vai ocorrer um aumento da dívida pública porque todos os Estados estão transferindo renda para as pessoas mais necessitadas e provendo crédito para empresas que ficaram vulneráveis subitamente e não teriam crédito no mercado porque os bancos privados aumentam o prêmio de risco. Canuto avalia que no Brasil o pacote extraordinário foi anunciado, mas não está funcionando, e o canal de crédito para as PMEs está emperrado. 



“A dívida pública vai subir, de uma estimativa de 76% do Produto Interno Bruto no final do ano passado, para 90%. Porém, o importante é que não se precisou jogar fora o arcabouço de ajuste fiscal em que o país estava. Quando tudo se normalizar, o prêmio de risco que os credores vão cobrar não será tão ruim. Porém, a nossa baixa eficiência no distanciamento social e achatamento da curva acaba prejudicando o desempenho econômico. Há uma convergência de que a queda do PIB fique entre - 7% e - 10%”, analisa Canuto. Guilherme Henriques, sócio-diretor da consultoria Alvarez & Marsal, responsável pela área de setor público, ressalta que, antes da Covid-19, o país vinha de uma retomada do crescimento após a agenda de reformas liberais e o início das desestatizações. Ele diz que mesmo o dólar alto estimula o investimento estrangeiro, pois os ativos brasileiros ficam mais baratos. 

“Quando os programas de infraestrutura e de desestatização sofrem um freio da Covid, ficamos apenas com o efeito ruim do dólar alto. Analisando a crise em todo o mundo, temos a chamada recessão singular, em que não houve desequilíbrio econômico e sim uma recessão derivada da decisão dos governos de preservar a saúde, desaquecendo, abruptamente, as economias. Os EUA e a China deverão ter declínio de 10% e a Europa ficará entre 15 a 20%, semelhante ao que o Brasil deverá ter. Teremos um período de piora para depois alavancar. Levaremos de um a dois anos para chegar ao novo normal”, diz Henriques. 


O home office deve ser uma solução empregada por muitas companhias
mesmo após o fim da quarentena. 

O MUNDO PÓS-COVID 

Tudo isso mostra que o período pós-Covid deve apresentar mudanças nos hábitos de consumo, na educação, no trabalho, na sociedade e nas próprias pessoas. A experiência do confina- mento permitiu às pessoas contato com novas formas de relacionamento e trabalho e já se fala na sociedade 5.0, que traz o ser humano mais para o centro da reflexão, enfocando questões como a dimensão da espiritualidade, no tempo pós-normal.
 
Pierre Lucena, presidente do Porto Digital do Recife, ecossistema referência mundial em empreendedorismo e inovação, diz que o mundo está passando por uma transformação digital forçada, em que empresas e pessoas foram obrigadas a trabalhar de casa ao mesmo tempo que cuidam dos filhos e dos afazeres domésticos. A primeira lição é que é possível produzir sem estar num ambiente físico e nem ser pago por hora e sim por produção. Mas como passamos por um confinamento forçado, haverá de- manda reprimida por encontros pessoais. 

“Pode ser que o remédio tenha sido tão forte, que as pessoas vão querer voltar para o trabalho e, assim, talvez, a passagem para o home office, que naturalmente iria acontecer, acabe comprometida. Acredito que teremos um período de euforia semelhante ao do pós-guerra. Mas alguns setores terão muitos desafios”, analisa Lucena. 

O varejo físico, que já vinha sofrendo, tam- bém será atingido e a necessidade de os shoppings se reinventarem num prazo curto será um grande desafio. Haverá uma retração muito forte e o Brasil demorou muito para adotar medidas de estímulo à economia. “Vamos precisar de muita velocidade na implantação de um plano de recuperação e o Estado vai precisar se endividar para recuperar o país, a exemplo do que os países fizeram no pós-guerra e na crise de 1929. Se o governo não atrapalhar e adotar medidas para o aumento de liquidez, forçando os bancos a dar crédito, a economia vai se recuperar”, estima Lucena. 

A grande incógnita é se vai haver uma mudança no significado do conceito de produtividade no trabalho. Em algumas empresas, a produtividade durante a pandemia até aumentou. Lucena prevê que a onda de desemprego ocorrerá nos mercados que estão sendo destruídos. O novo trabalhador precisa ter um conjunto de habilidades muito diferente do trabalhador de 20 anos atrás. Com isso aumenta-se o contingente de pessoas fora do mercado, pessoas que há 20 anos seriam qualificadas. 



Vamos precisar de muita velocidade na implantação de um plano de recuperação e o Estado vai precisar se endividar para recuperar  o país, a exemplo do que os países fizeram no pós-guerra e na crise de 1929. 
Pierre Lucena, presidente do Porto Digital do Recife

“Aumentamos a produtividade das pessoas em 40 vezes, nos últimos 20 anos, e não aumentamos em 40 vezes a nossa qualidade de vida. Segundo a teoria do desemprego estrutural, toda vez em que se elimina uma vaga mais sofisticada na indústria, ela é criada em outros setores com o de serviços. O iFood eliminou restaurantes e o que se esperava é que permitisse que trabalhadores como o puxador de carroça ascendessem. Mas, na verdade, os aplicativos estão empregando o assistente administrativo que perdeu o emprego”, adverte Lucena. 

Fernando Teixeira, diretor executivo de tecnologia da Accenture para América Latina, diz que a busca pelo trabalho remoto já vinha acontecendo. A discussão agora é em relação à produtividade. Em nível global, empresas como Twitter, Amazon, Google, Facebook e Microsoft, anunciaram que adotarão o home office de forma permanente. 

O mundo pós-Covid não voltará ao que era, e as empresas terão de aprender a liderar no novo contexto. Há diversos desafios no trabalho remoto muito associados à cultura das organizações. A transformação digital, que já era uma necessidade, tornou-se imperativa, tanto em relação ao relacionamento com o consumidor, quanto a otimização da cadeia de suprimentos (supply chain). Haverá uma pressão por redução de custos dado o cenário econômico do pós-Covid. 

“Serão necessários investimentos em tecnologias que permitem redução de custos como inteligência artificial, assistentes virtuais e todo um conjunto de soluções associadas à automação de processos. Há uma importância crescente no papel da tecnologia que será acelerada para atender à mudança de comporta- mento esperada”, completa Teixeira. 


No pós-Covid, a China deve se consolidar como
uma das protagonistas da política e economia mundiais.

Silvio Meira, cientista-chefe da The Digital Strategy Company e professor extraordinário da Cesar School, ressalva que, embora muitos estejam prevendo grandes transformações, se catástrofes, guerras e pandemias mudassem o mundo e as pessoas, não teria havido a Segunda Guerra Mundial 20 anos depois da pandemia de 1918. A guerra começou em 1939 exatamente nos lugares mais afetados pela pandemia, que matou cerca de 50 milhões de pessoas. 

“O economista Paul Collier diz que a única forma responsável de se responder a como vamos viver depois da pandemia é dizer ‘eu não sei’. Mas há sinais. Richard Haass, presidente do Concil on Foreign Relations, nos EUA, e principal articulador da política externa de Barack Obama, diz que a direção da história não vai mudar, mas será muito acelerada. Os Estados Unidos – que nos últimos 80 anos dominaram o mundo – nas duas últimas décadas já dão sinais claros de que o seu modelo de desenvolvimento e de liderança global entrou em colapso”, analisa Meira. 

Para o cientista, o momento atual é de transição e o mundo não mais será liderado por um único país. Há a ascensão da China, como uma criação dos próprios Estados Unidos que, junto com a Europa na onda de reengenharia dos anos 1990, transferiram toda a produção fabril do planeta para o país asiático. Especialmente de produtos cujo custo de transporte era irrisório, como smartphones e eletrônicos, e depois partes e peças de automóveis e até camisetas e bermudas. Assim, criou-se uma potência fabril global que soube usar isso para criar, por outro lado, ativos de ciência e tecnologia, inovação e desenvolvimento. 



“A China não está interessada em fabricar navios ou aviões. O próximo salto cognitivo da humanidade será em genética e a China hoje está claramente à frente da Europa e lado a lado com os EUA. Enquanto a Europa e a China estavam desenvolvendo a infraestrutura do 5G, os EUA estavam investindo em Facebook e Instagram. No Brasil, o Estado tem perdido o papel de definição de grandes desafios nacionais”, analisa Meira. 

Ele ironiza que o conjunto de tecnologias que passou a ser utilizado no confinamento não é nenhuma inovação, mas apenas práticas que já eram corriqueiras, há pelo menos 15 anos, em alguns segmentos, como as empresas de tecnologia. “Bem-vindo a 2005. O primeiro e-commerce surgiu em 1994 com a Amazon, que já tem 26 anos. A pandemia levou vários negócios a rapidamente montarem um e-commerce, ou seja, acabaram de chegar a 1994. Existem pessoas que não chegaram a 2007, quando foi inventado o smartphone. Tem site que não consegue criar interface responsiva para aparecer bem na tela do smartphone. Tem muita empresa que montou site no modelo de 2000. Outros ainda não entenderam o que é atendimento ao consumidor”, resume Meira. 

Em Webinar promovido pela Casa Firjan especialistas ressaltaram que a consolidação da inteligência artificial e de um mundo ultraconectado vai exigir que líderes e gestores discutam ainda mais o conceito de sociedade 5.0, que coloca o ser humano no centro de tudo. No entanto, diante da complexidade, do caos e das contradições dos tempos pós-normais, os desafios são muitos. 

Gil Giardelli, CEO da 5Era e professor de inovação, disse que há uma procura por temas ligados à espiritualidade e à felicidade de um modo geral nas principais universidades do mundo. Em Stanford, um dos cursos mais procurados é o Designing Your Life [Projetando sua vida, em tradução literal], criado pelo diretor do programa de Design, Bill Burnett, junto com Dave Evans, que liderou a equipe de design do primeiro mouse da Apple e cofundou a desenvolvedora de jogos eletrônicos Electronic Arts. Eles não entendiam por que, numa universidade tão perfeita materialmente, havia tantos casos de depressão, ansiedade e até suicídio. Mesmo uma universidade considerada financista, como Harvard, tem entre os livros mais vendidos O lado humano da vida profissional, tratando de felicidade, resiliência e empatia. 

“Sendo um otimista racional, baseado em dados, posso afirmar que o mundo nunca esteve tão melhor. Essa pandemia é um soluço triste, mas são tempos fantásticos para estarmos vivos. Era um crime falar em espiritualidade na academia e no mundo dos negócios, mas hoje discute-se muito os três “S” – science, society e spirituality [ciência, sociedade e espiritualidade]”, ressalta Giardelli.        


Publicado por Revista Rumos Economia & Desenvolvimento