Latina Eletrodomésticos Espanta a Crise e Já Consegue Aumentar o Faturamento

São Paulo- Após ter seu plano de recuperação judicial aprovado em julho de 2015, ou quase um ano de seguidas adequações da sua estrutura ao novo cenário econômico, a Latina Eletrodomésticos já colhe resultados expressivos mesmo em um quadro recessivo. O faturamento cresceu, em média, 18% ao mês neste ano, com perfil de produtos mais rentáveis, o que resultou em lucro antes dos juros, impostos e depreciação (EBTIDA) positivo e crescente desde fevereiro último. O faturamento previsto é chegar próximo a R$ 100 milhões. O ano começou com R$ 4 milhões/mês, foi para cinco, seis e bateu nos sete milhões em abril. Em maio estabilizou em sete milhões, que projetado, deve se aproximar de cem milhões em 2016. 

O processo de reestruturação da Latina, conduzido pela Corporate Consulting, mostra que existem ferramentas gerenciais para colocar as empresas no trilho do crescimento sustentável com o amadurecimento do mercado de turnaround ou virada corporativa. 

“Um dos maiores problemas da empresa, assim como de muitas outras, era a falta de visibilidade de custos e formação de preços. A Latina trabalhava com margens negativas”, diz Luís Alberto Paiva, sócio-diretor da Corporate Consulting.”

“Uma saída para as empresas que precisam reverter a crise financeira que atinge mais de um milhão de pequenas, médias e grandes é aproveitar ao máximo os benefícios da Lei de Recuperação Judicial ao mesmo tempo em que fortalece a gestão mediante programa de ajuste. Muitas que recorreram ao novo mecanismo não só conseguem evitar a falência como ainda tornaram-se mais fortes e com novos padrões gerencias e de controles de seus processos. Não só voltaram a receber dinheiro novo por parte dos bancos para destravar suas operações comerciais como ainda conseguem condições especiais de renegociação de dívidas, com prazo de pagamento de 15 anos e deságio de até 50% “, avalia Ricardo Vastella, consultor da Corporate Consulting e um dos responsáveis pela gestão interina da Latina. O orçamento revisado da Latina para o segundo semestre, informa Vastella, aponta para uma empresa mais enxuta e rentável em relação ao ano anterior, porém com resultado econômico bem acima do apurado em 2015. “A estrutura de custos fixos foi ajustada à operação e hoje o processo de tomada de decisões é rápido e desburocratizado”, destaca.

Para aperfeiçoar os controles gerenciais e de informação, a Latina finaliza neste mês a migração da versão mais atualizada do sistema de gestão empresarial (ERP). Assim, passa a integrar todos os processos desde a aquisição das matérias primas, manufatura, logística e distribuição. “Haverá maior agilidade na tomada de decisões aliada a precisão dos dados, para garantir competitividade em um mercado cada vez mais exigente”, acrescenta o consultor da Corporate Consulting.

A reestruturação do capital de giro avança a cada resultado positivo mensal. O plano de recuperação segue dentro do cronograma estabelecido, onde a classe trabalhista já foi liquidada no começo deste ano.

A empresa reestruturou sua área comercial e hoje volta sua atenção para a melhoria das margens, pulverização da carteira de clientes, ampliação da base comercial, melhoria dos preços médios de venda, otimização da logística de entrega de produtos, bem como a revitalização de sua rede de representantes em todo o País, relata Vastella. Dentre outras ações investiu na expansão do e-commerce acompanhando a tendência do mercado. “O pior já passou”, assinala o consultor da Corporate Consulting.

Depoimento do presidente da Latina, Valdemir Dantas

- A Latina começou com uma lavadora semiautomática e está no mercado a 20 anos com mais de 5 milhões de “tanquinhos” vendidos.

Identificamos as dificuldades financeiras em 2013 quando os bancos, de um modo geral, ficaram mais seletivos após o evento Eike Batista. Estávamos com uma visão míope, pois na sua grande maioria os empreendedores ficam com dificuldade em ver os “sinais de alerta” na medida em que querem a todo o custo crescer. A Latina sempre foi alavancada e as Recuperações Judiciais de alguns clientes inadimplentes, associadas a uma formação errada de preço, fez com que a situação se agravasse.

Assim entramos com o pedido de RJ em 2014, a Assembleia aprovou o nosso Plano em 2015 e estamos agora colocando a empresa “nos trilhos “ e iniciando a fase de crescimento sustentável. Quero ressaltar que contamos com o apoio e compreensão dos nossos fornecedores, postos autorizados e sobretudo dos varejistas.

Como a vaidade dos empreendedores é uma característica, a primeira coisa foi reconhecer a necessidade de ajuda. No nosso caso a ajuda concentra-se na área financeira e negociações com fornecedores e bancos. Tivemos de fazer cortes drásticos no volume de vendas, despesas fixas e redimensionamos a empresa para ser apenas 60% do que era no passado. No momento a nossa preocupação é recuperar a confiança dos nossos representantes, distribuidores, fornecedores e consolidar os produtos atuais

A nossa meta hoje é sair da RJ o mais cedo possível e manter a empresa saudável. Gestão Errei na hora de formar preços e de cobrar os clientes. Foi um drama até decidir recorrer à Justiça para salvar a companhia

O problema não era dormir. Para isso contei com a ajuda de ansiolíticos. O problema era acordar. Sou um cara que nunca ficou devendo para ninguém. Imagina a vergonha de ter de recorrer à recuperação judicial. Não teve jeito. Pensei mais em salvar empregos e a companhia. Deixei a vaidade de lado.

A empresa cresceu rapidamente no final da década de 90, com a produção de tanquinhos para lavar roupas. Na época, o produto era uma grande novidade, pois atendia às famílias de baixo poder aquisitivo.

Uma dívida com bancos e fornecedores da ordem de R$ 25 milhões levou a Latina a recorrer à Justiça em junho de 2014 e a conseguir aprovar um plano para quitar os débitos em três anos e meio, que depois foi prorrogado para dez anos. Meu desejo é liquidar tudo em menos tempo, até porque não tenho muito tempo, já estou com 69 anos.

Assumir que a empresa não tinha mais saída e precisava recorrer à Justiça acabou causando certo alívio. O problema foi passar por todo o processo antes de chegar até esse ponto. Imagina isso: um diretor de sua empresa diz: 'preciso de R$ 300 mil para pagar os salários dos funcionários’ e você não vê alternativa, se não fazer um cheque naquele valor de sua conta pessoal.

Empresas que chegam a essa situação costumam culpar a crise econômica, a queda de vendas por estarem em dificuldades financeiras. A crise, na verdade, só ressaltou as falhas de gestão.

Erros Erramos na formação de preços dos produtos. Os tanquinhos eram vendidos a R$ 299 para o consumidor, mas deveriam custar cerca de R$ 400.

Na negociação com os clientes, eu não considerei todos os custos do frete. O cliente comprava com preço para entrega no depósito ou na loja dele. Só que a gestão de logística não era minha e, com aumento de preços de combustíveis, pedágio, o meu preço ficou abaixo do que deveria.

Outro erro da Latina foi vender com prazos muito longos. Alguns clientes tinham prazos de 120 dias para pagar e, ainda assim, pagavam com atraso. Fizemos negociações erradas. A área financeira era fraca. Eu e meu sócios somos engenheiros. O sucesso de uma empresa depende de um bom gerente financeiro, de um bom advogado tributarista. Hoje eu reconheço isso.

As falhas de gestão de preço e de venda ficaram mais expostas a partir de 2013, quando o consumo começou a dar sinais de retração. Começamos 2014 no sufoco e quando a Electrolux e a Whirlpool (Brastemp) anunciaram férias coletivas, em maio de 2014, porque o comércio só estava comprando TV para a Copa, me dei conta de que a Latina estava prestes a passar por momentos ainda mais difíceis e precisava agir.

Até aquele momento a companhia ia muito bem. Até 2005, a empresa chegou a vender cerca de 400 mil tanquinhos por ano. Seu faturamento atingiu, em determinado período, cerca de R$ 180 milhões anuais.

A situação da empresa era tão saudável que, durante dez anos, de 1997 a 2007, o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) virou sócio da companhia. A Latina preenchia requisitos estabelecidos pelo banco: governança, histórico dos sócios, planejamento, orçamento.

Em 1997, a empresa faturava R$ 20 milhões por ano. Com a injeção de recursos do BNDES, que adquiriu uma participação de 29,5% da empresa, a Latina conseguiu entrar em outras linhas de produtos.

Além dos tanquinhos, a companhia passou a produzir em sua fábrica de São Carlos, no interior de São Paulo, bebedouros, purificadores de água e ventiladores de teto. Fomos nós que colocamos a linha de purificadores de água no varejo. Até então, o produto era vendido de porta a porta ou em lojas especializadas.

A Latina decidiu diversificar para tornar a marca mais conhecida. Ninguém leva alguém para a lavanderia para ver um tanquinho. Então decidimos entrar em outras linhas de produtos para tornar a marca mais conhecida.

EFEITO DA CRISE

A crise bateu antes na rede de clientes. A Latina sempre trabalhou com recursos de terceiros, com empréstimos de bancos. Só que alguns clientes menores entraram com pedido de recuperação judicial e nós ficamos sem receber. Quando fomos ver, tínhamos para receber cerca de R$ 2 milhões.

O que piorou muito a situação da empresa na relação com os bancos foi o efeito Eike Batista, que chegou a ser o empresário mais rico do Brasil, e perdeu parte da fortuna, a partir de 2012, por não cumprir cronogramas na exploração de minérios, petróleo e gás. Depois disso, os bancos ficaram muito mais seletivos. Perdemos as nossas linhas de crédito e, como a inadimplência dos clientes já estava alta, entramos no sufoco.

O plano inicial da companhia era sair do processo de recuperação judicial em dois anos e meio. Com o aprofundamento da crise, o plano teve de ser revisto e esticado para dez anos. Em setembro de 2014, a empresa faturou R$ 20 milhões por mês. Em um determinado período de 2015, com a queda de vendas, esse número despencou para R$ 6 milhões. Para ajudar no processo de “virada” da companhia, a Latina contratou, em dezembro do ano passado, a Corporate Consulting, consultoria especializada em reestruturar empresas com problemas financeiros.

“Um dos maiores problemas da empresa, assim como de muitas outras, era a falta de visibilidade de custos e formação de preços. A Latina trabalhava com margens negativas”, diz Luís Alberto Paiva, sócio-diretor da Corporate Consulting.

Fechar um centro de distribuição e as vendas para o Nordeste foi uma das primeiras ações para colocar a empresa em ordem.

“Cortamos 40% das despesas fixas, mão de obra, carro e enxoval. Sabe o que é o enxoval? Além de toda a despesa de um carro, quando um funcionário viaja com ele, tem custo com combustível, hotel. O carro, portanto, é um gerador de despesas. Tínhamos 13 veículos. Hoje, temos três”, diz.O quadro de funcionários foi reduzido de 270 para 170.

APRENDIZADO Depois do período tenso que passou, ele se diz pronto para fazer recomendações a empresários que estão em situação parecida - e não devem ser poucos.

“A empresa precisa saber cobrar. É chato cobrar um cliente, mas isso é fundamental. A Latina perdeu muito dinheiro por não saber cobrar e por deficiência na análise de créditos para os clientes.”

E essa análise, diz ele, não passa apenas por consulta à banco de dados. “As empresas precisam conhecer os clientes, visitar as empresas. ” Pode até ser que a queda do poder aquisitivo da população dê novo gás ao seu negócio. “56% das famílias não possuem máquinas de lavar roupa. As minhas chances, no entanto, estão em cima de compras mais racionais. ” Com um purificador de água, diz ele, uma família economiza dinheiro porque deixa de comprar garrafas de água e ainda contribui com o meio ambiente.

Apesar da “virada” na empresa, que já voltou a ser lucrativa, de acordo com Paiva, Dantas diz que está aberto para a entrada de um novo sócio, e até mesmo para a venda da companhia.


Publicado por Corporate Consulting