Comprador da Romera prevê investir R$ 80 mi em 180 dias

A Romera chegou a ser a nona maior rede de eletrodomésticos e móveis do País e a faturar R$ 1,2 bilhão em 2016


O empresário e investidor Walter Nicolau Filho afirmou na quinta-feira (10), em entrevista à FOLHA, que pretende investir R$ 80 milhões no Grupo Romera nos 180 dias seguintes ao deferimento pela Justiça do pedido de recuperação judicial. A compra da rede de lojas, da transportadora e da indústria de estofados da empresa de Arapongas foi anunciada na última quarta-feira (9), mas foi fechada há 60 dias. O novo proprietário disse que todo o processo de enxugamento para reversão dos prejuízos já foi feito e que não deve ocorrer perda significativa de empregos nos próximos meses.  

A Romera, que chegou a ser a nona maior rede de eletrodomésticos e móveis do País e a faturar R$ 1,2 bilhão em 2016, segundo o ranking "300 Maiores Empresas do Varejo Brasileiro" da SBVC (Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo), passou a enfrentar dificuldades com a crise financeira que tomou conta do País nos últimos quatro anos. A receita recuou para R$ 580 milhões no ano passado, quando o prejuízo foi de R$ 40 milhões. No total, as dívidas do grupo somam R$ 130 milhões, entre fornecedores (90%), bancos (7%) e funcionários (3%).  

Nicolau Filho afirmou que o fim dos anos de crédito fácil e o alto endividamento do brasileiro elevaram a inadimplência e deixaram a empresa no vermelho, bem como levaram à drástica redução do capital de giro. "Em janeiro, quando comecei a conversar com a Romera, o plano era a reestruturação, mas surgiu a oportunidade de fazer a aquisição", disse.  

BLINDAGEM  

Apesar de incomum no Brasil, ele afirmou que a compra com pedido de recuperação judicial segue um modelo norte-americano de blindagem da empresa, para impedir que todos os investimentos sejam usados no pagamento de dívidas e possibilitar a recuperação do negócio. Assim, diz que foi possível cortar menos de 5% dos funcionários, rever os cargos com salários mais altos, terceirizar serviços gerais e fechar menos de 10% das lojas.  

Das 174 unidades abertas em janeiro, sobraram 167 na aquisição, dois meses depois. Segundo o empresário, outras dez eram pouco competitivas e fecharam as portas. Ficaram 157, das quais sete estão em processo de quarentena, para identificar a viabilidade. "O objetivo não é fechar mais, mas voltar a crescer", afirmou Nicolau Filho. Ele contabilizou menos de 50 trabalhadores que poderiam ser demitidos nos próximos meses, em um total de 2,2 mil no grupo.  

A fábrica, por outro lado, deve ser vendida, para que a empresa volte o foco à atividade principal, de vendas. "Temos um interessado na indústria e já estamos conversando", disse. 
 
NOME FORTE  

Para o empresário, a Romera tem um nome forte e baixa concorrência em boa parte das cidades onde atua. Além do Paraná, o grupo está presente em São Paulo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Acre, Rondônia e Pará. "Nosso cliente é o que gosta de comprar na loja física, que às vezes paga em dinheiro. É o pecuarista, o agricultor, que é fiel, e minha visão como investidor é de continuar nesse mercado", citou Nicolau Filho. "O interesse é expandir, crescer. Não posso falar que não vou analisar se tiver proposta de aquisição, mas já recebi algumas para operações em determinadas regiões e rejeitei, porque acredito no negócio."  

RETOMADA  

Responsável pela recuperação judicial da Romera, o presidente da Corporate Consulting, Luis Alberto Paiva, afirmou que o grupo tinha um Ebtida (Lucros antes de Juros, Impostos, Depreciação e Amortização, na sigla em inglês) negativo em 10%, ou de cerca de R$ 10 milhões mensais. No entanto, diz que é possível chegar a um ponto de equilíbrio em dois meses e retomar o crescimento, com Ebtida positivo de 8%. "Não tenho dúvidas que a aprovação do plano ocorra em até seis meses, porque é uma empresa boa, que não compete onde atua com a maioria das redes e que continua vendendo ainda hoje", disse.  

Há 18 anos no mercado, Paiva afirmou que atuou em 130 recuperações judiciais e todas foram aprovadas, concluídas ou estão em andamento. Com a entrada do pedido na 2ª Vara Cível de Arapongas no último dia 2, ele acredita que será possível retomar o abastecimento das lojas nas próximas semanas, com o aval dos principais fornecedores.  

Cerca de 40 dos 508 credores da Romera respondem por 80% do abastecimento da loja. "Esses já aprovaram o plano e estamos buscando formatos diferentes, inovação em produtos e com um giro mais aceitável. Ainda não tivemos como conversar com os credores menores, mas esse 40 deram apoio total", disse o consultor. "Se voltarmos à pujança de antes, acreditamos que liquidaremos esse passivo em tempo recorde. Até por isso não queremos fechar lojas e até buscamos uma possível aquisição de duas redes menores", completou Paiva.  

Ele explicou ainda que a aquisição seguida do pedido de recuperação é incomum, mas que se deu pelo interesse da proprietária antiga, Anunciata Luiza Menegon Romera, de não continuar na operação. Caso contrário, o processo seria feito com a abertura da recuperação judicial e a criação de uma UPI (Unidade Produtiva Isolada) em nome dela, para que não restassem débitos com o sucessor. "Entramos na companhia, fizemos um diagnóstico para saber como conduzir a reestruturação e qual a necessidade de capital. Nosso parecer foi que era necessário um aporte de R$ 70 milhões, mas em investimento", disse Paiva.  

Ele completou que o valor é necessário para recuperar a rede e que a recuperação judicial serve como proteção às tentativas de credores, "quase diárias", de bloquear valores em contas da Romera. A antiga proprietária foi procurada por meio da empresa, mas a informação é de que ela não gostaria de se pronunciar neste momento.  

COMÉRCIO EXTERIOR  

O empresário e investidor Walter Nicolau Filho, novo proprietário da Romera, atua principalmente com importação e exportação de papel e celulose, aço, reagentes da indústria farmacêutica e cosméticos. Ele afirmou que o interesse pela compra de 100% do grupo voltado ao comércio de eletrodomésticos e móveis se deu por uma oportunidade de mercado. O investimento foi individual, privado, com parte dos recursos com origem em fundos de private equity, de parceiros fornecedores e de bancos.  

Nicolau Filho é nascido em Santos, mas cresceu entre Londrina e Arapongas. Ele trabalha há muito tempo na região de Curitiba, onde chegou a ser alvo da Operação Mercúrio, deflagrada em maio de 2015 em Curitiba, como um braço da Publicano, para investigar corrupção entre auditores fiscais e empresários. Na ocasião, ele foi investigado pelo pagamento de R$ 25 mil a um funcionário da Receita Estadual, após fiscalização nas empresas Global Papers Importação e Exportação de Papéis Ltda. e Sinai Comércio de Papéis. Porém, o Gaeco (Grupo de Atuação Especial e Combate ao Crime Organizado) passou a apontar que o contador de Nicolau Filho agiu contra o próprio cliente, sem conhecimento dele, e em favor do auditor. "Fui de acusado a testemunha de acusação", disse o empresário. "Mas eu não tive nada a ver com o caso. O fiscal e um contador de uma consultoria tributária que contratei é que respondem a processos", completou.

Publicado por Folha de Londrina